segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Conto - Teste de fé

 Da série Mais um conto que eu conto - Teste de Fé

A mulher corria a passos largos para chegar ao o endereço escrito no papel. Praticamente viajou por alguns quilômetros para chegar na casa da pessoa que faria o seu problema desaparecer, e o seu sonho enfim deixar de ser apenas uma vontade.

Assim que viu o grande portão vermelho a mulher sentiu o coração disparar, enfim chegara. Logo bateu palmas e gritou pela dona do lugar, em poucos minutos um rapaz jovem abriu o portão pequeno e com as mãos apontou para que ela entrasse.

Ana caminhou até a mulher. Assim que pôs os olhos nela sentiu um arrepio, “aura ruim”, ela pensou, e respirou fundo. Com certeza a moça esta carregada e veio buscar ajuda.

- Olá, em que posso ajuda-la? – Perguntou Ana à mulher de olhos atentos.
- Boa tarde. Eu ouvi falar muito da senhora, por isso estou aqui, a sua fama correu até a minha cidade, e vim buscar ajuda. Posso arcar com tudo o que o dinheiro pode comprar e farei de tudo pra ajudar a senhora, mas preciso que me ajude.
Ana sorriu levemente, baixou a cabeça e a encarou com serenidade.
-Se eu puder ajudar, farei isso. – Respondeu Ana.
- Com certeza pode, você ajudou demais a minha amiga Rosa.

- O que a traz aqui? – Perguntou Ana, crendo já saber a resposta.
- É muito simples, eu quero o meu homem de volta. – Disse ela ao sorrir.
- Seu homem? – É seu marido, ou namorado... – Ana suspirou. - Conte-me a historia pra eu entender.
- Mãe Ana, a senhora não me leve a mal, mas eu só quero que ele volte. Eu sei que pode fazer isso, preciso de ajuda ou vou morrer sem meu homem.
- Que exagero! – Ana sorriu levemente. – Vamos com calma, nada é tão radical. Diga o que aconteceu para que eu possa entender e ajudar.
Selma se enfureceu por dentro, seus olhos fulminaram a mãe de santo a sua frente. Selma não queria, e não explicaria nada. Queria o homem e isso bastava que ela soubesse.
- Eu posso pagar mãe Ana, bote o seu preço. – Disse Selma tentando esconder a fúria entre os dentes. – Eu quero que ele fique comigo. Ele já largou da outra com filha e tudo, mas não esta comigo! Então não adiantou nada, eu paguei muito caro para o pai de santo, mas meu homem não veio morar comigo!

A mãe de santo ficou pensativa. Arrependeu-se do momento em que pediu para o rapaz abrir a porta e receber aquele desequilíbrio em forma de gente, embora soubesse que a pobre precisava mais ajuda do que ela mesma imaginava.

- Minha querida, infelizmente eu não poderei ajudar dessa forma. Desculpe.
- Como assim? Isso aqui é macumba ou não é!?
- Aqui é uma casa de Deus, que abre as portas para ajudar as pessoas, e não para destruir lares por mulheres caprichosas. Vá se cuidar, e cure-se. – Respondeu mãe Ana enquanto caminhava até a porta.
- Eu só estou pedindo uma ajuda! – Esbravejou a mulher. – Quero uma mãe de santo boa, que cobre o preço que for, mas que faça o que eu quero.
- Não. Você quer destruir uma pessoa. Se procurasse ajuda para você eu faria, mas não é o caso. A  mãe de santo arqueou a sobrancelha. - Eu quero que vá embora.

A noite Ana sonhou. No sonho ela chorava sobre alguém, o senhor baixo e franzino que a acompanhava dizia: - Cuida de você que isso é sangue ruim. Tem gente na terra que cruza o caminho das pessoas só pra testar a sua fé, essas pessoas não tem medo de perder, nem vontade de aprender, a sua única missão é destruir. Os espíritos que acompanham pessoas assim são tão destruidores quanto elas, trocam e renovam energias de raiva, ódio e rancor. Aqueles que estão fortalecidos ficam ainda mais fortes, mas aqueles que por algum motivo fraqueja em duvidas na fé, serão alvos, e colocam em risco toda a evolução da alma, corpo e mente.

Na casa de mãe Ana as coisas não estavam nada bem,  Ana soubera de uma doença grave que debilitava sua filha. A menina necessitava de transfusão de sangue, tão logo um transplante de medula precisaria ser feito as pressas. A cada dia a jovem ficava mais fraca, e nada de uma medula compatível. Um médico ofereceu à mãe Ana uma forma de ter o que ela precisava de um jeito rápido e eficiente. Disse ele que alguém “vendia” este serviço, e que por uma determinada quantia ele já incluiria a cirurgia, internação e tudo o que fosse preciso, uma vez que a menina estava distante na lista de espera, isto seria algo a pensar.

Dois meses após sua primeira visita Selma apareceu novamente na porta de Ana. Disse que faria de tudo para ter a ajuda da mãe de santo, e contaria toda historia. Selma disse que o homem pelo qual se apaixonou era casado, os dois se apaixonaram e ele largou a ex mulher. No entanto, sua esposa não aceitou a separação, e fizera de tudo para separa-los. Mas mesmo juntos ele não deixava de visitar a filha, e as vezes mostrava-se em duvidas entre ficar com uma ou outra. A mulher retirou um talão de cheques da bolsa, preencheu com um valor um pouco acima do que mãe Ana precisava para fazer o transplante da filha. Ana olhou para a mulher e sentiu uma dor no estomago.  

Vinte dias depois as oferendas estavam postas.

Selma estava empolgada, trazia consigo a foto do tal homem. Disse baixinho consigo mesma: “Você será meu”.

Mãe Ana pediu que os tambores tocassem, e fez o que fazia sempre, chamou pelos orixás. Os filhos da casa começaram a girar em torno da mulher.  

Uma neblina escureceu os olhos, e mãe Ana flutuou. Do alto de sua casa subiu um pouco acima da cabeça da mulher. Viu vultos sombrios ao redor de Selma, um pouco afastados como se estivessem a sua espera.

Mãe Ana voltou do desmaio:

- Que entre o ceu e a terra, e o que existir entre ela, o melhor aconteça. E apenas o merecedor de amor e confiança os receba em sua dignidade. – Disse a mãe de santo com a voz embargada.
- O que esta acontecendo? Perguntou Selma irritada.
- Moça, você já pode ir. - Respondeu Ana. – Aqui está tudo certo.
A mulher sorriu.
- Mas não deu tempo de fazer nada!
- Deu tempo sim para tudo. Pode ir embora. – Respondeu Ana.

O cheque de Selma foi rasgado em muitos pedaços. Ana ajoelhou-se frente às oferendas, passou a falar baixinho enquanto lagrimas escorriam de seu rosto. Então ela finalizou dizendo.

- Eu acredito.

Selma nunca mais foi vista por aquela turma, mas Rosa, a moça que a indicou disse que ela estava á beira da loucura por conta do amante que resolvera que ficaria com a esposa e não com ela. A moça também disse que por vezes ela falava em se cuidar espiritualmente, mas que depois voltava em sua raiva desmedida do mundo e das pessoas. Rosa pediu para que mãe Ana fizesse pedidos em oração.

- Os atos têm consequências. – Respondeu mãe Ana. – As vezes o espirito esta pronto, mas a carne é fraca! É preciso se atentar a vida. – Disse ela com um leve sorriso.


A filha de mãe Ana recebeu uma doação compatível na mesma semana em que ela decidiu que não faria mal à alguém por conta da vaidade alheia, e que aquele que faz o mal ou contribui para o mal, sempre o receberá de volta. A mãe de santo sempre soube as intenções de Selma,  e se lembrou de que as provações acontecem para todos, e que é preciso vigiar e ter fé, sempre. 

 





Texto por Grazy Nazario. 
MTB. 74588/SP

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